Tudo é relativo, tudo é questão de ponto de vista. Há muito mais entre sólido e líquido do que se possa imaginar. Aquele que afirma que céu, terra e mar são coisas completamente distintas não sabe o tamanho do engano que leva consigo – o sol dorme quando a lua acorda, a lua dorme pro céu acordar, fazendo, assim, esquentar a terra e o mar, sempre.
São ondas que vem e vão; é o grão de areia coberto pela água em conjunto com o sal que alimenta todos os dias aquele que possui o prazer de sentir na pele, o cheiro, o gosto, ver e ouvir o mundo que há por baixo do ir e vir das águas.
O mar é uma cidade. Uma cidade daquelas que nunca dormem. Permita-se tal analogia: suas pedras, sua areia, ajudam a compor certa base sólida que absorve todo o tipo de matéria – alimento, lixo, naufrágios; coisas úteis e inúteis – seus caminhos não precisam de divisões e indicações de sentido, muito menos orientação, seus moradores sabem ao nascer a se guiar pela sua sensibilidade; as construções são donas de um colorido único, e de um bom gosto absurdo, cada coral tem sua importância neste mundo existente embaixo do nariz das ondas – suas conchas reproduzem, até o fim, o som tranqüilizador (outras conchas, aquelas que se abrem, trazem consigo jóia rara – essas ‘construções’ vivem em sintonia com o seu contexto, e na falta delas a ‘cidade mar’ seria incompleta e saberia o que é viver sem alegria; não se pode esquecer dos moradores: do cavalo-marinho, da pinauna, da estrela do mar (que o faz cantar), dos peixinhos e dos peixões, golfinhos e tubarões, muito menos das baleias a nadar distribuindo encanto pelo mar.
Entende-se, então, que terra não é propriamente o solido que permite andar com firmeza todos os dias, a terra também pode ser mar – e é. Um é, diretamente, dependente do outro: terra sem água, resseca, morre, não tem função, água sem terra não tem fundo, não tem base, não se estrutura e vaza.
O liquido preenche o solido, um precisa do outro; sem o solido, o liquido escorrega, é absorvido, e deixa de existir; sem o liquido, o solido é vazio e incompleto , existe, mas não vive.
Deite na terra e direcione o olhar em linha reta, agora diga o que vê: um céu azul, azul da cor do mar. Ora! O azul envolve, contorna, mas, apesar disso, não limita – faz o inverso: apresenta o horizonte, o querer insaciável e infinito que é capaz de mover (e move) qualquer ser humano.

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